Retrospectiva 2002

Por: Vanessa Stella Another Monster(meu blog)



Quinta-feira, Maio 29, 2003

É o primeiro post do ano e eu tenho que fazer uma retrospectiva. Me sinto na obrigação de fazer essa retrospectiva...não é uma obrigação com o blog, com os leitores, é comigo mesmo. Preciso reler 2002 já que não é possível reescrevê-lo...

Sobrevivemos a 2002. Foi com essa frase fatídica que saudei minha família pela entrada de um novo ano. A virada trouxe uma sensação de alívio. Como se tudo fosse mudar (e vai), como se o próximo ano viesse carregado de esperanças e vitórias.
Sobrevivemos a 2002. O ano começou com a confirmação da notícia de que minha irmã se mudaria com o marido e a filha de volta para o Rio Grande do Sul (eles estavam morando em nossa casa há mais de um ano). Também começou com as diferenças entre eu e meu pai redescobertas no final de 2001 se intensificando por ele não concordar com a faculdade que escolhi cursar. Dia 15 minha irmã viajou, deixando a sensação de vazio, como se um ciclo tivesse se fechado. Mal sabia eu que o ciclo se fecharia de verdade meses depois. Dia 23 fiz 22 anos, ainda presa a muitas coisas do passado, ainda perdida, ainda confusa, como sempre, aliás, em relação ao meu futuro. Ainda ansiosa por colher sem nem mesmo saber plantar. No mesmo dia meu pai fazia 57 anos. Liguei para ele e desejei um feliz aniversário, foi uma trégua na tempestade... desejei muitos anos de vida, muita saúde e disse que o amava. Ele sempre soube disso. Fevereiro chegou pesado, minha avó passou mal, foi parar no hospital e nos deu um baita susto, meu pai ficou assustado e preocupado, mas achou que se confortaria concluindo "Sua avó já cumpriu a missão dela." ...será, pai? Talvez não exista missão para se cumprir, talvez as pessoas morram sem cumprir grandes missões ou continuem vivas após todas as missões possíveis...sempre há muito mais para se viver.
Sobrevivemos a 2002...mas não foram todos. Ainda no início do mês começaram minhas aulas e algumas semanas depois tive a última discussão com meu pai...a gente precisava daquilo, coisas esclarecidas, muito mais para se esclarecer, falei, fui dura de propósito, acreditava que quanto maior fosse o impacto melhor seria o resultado, deu certo. Ele pensou bastante. Entendeu bastante. A frase antes de sair "Precisamos conversar"... precisávamos mesmo. Dia 22 de Março viajei. Faltei aula para visitar minha irmã, voltamos juntas, eu, ela e a nenê, meu cunhado ficou, precisava trabalhar. Era para voltar dia 2, acabamos chegando só dia 6, um sábado. Papai foi nos buscar na rodoviária, parecia cansado, normal. Estava morrendo de saudade da nenê e ficou muito feliz ao nos ver...estava vestido de blusa vermelha e bermuda cáqui, sandálias, à vontade. Não consigo nem explicar o quanto fiquei feliz ao vê-lo, dei meu último abraço. Ele nos levou em casa, disse que mandaria limpar o terreno ao lado, alguém jogara um galho enorme de árvore e as folhas, ainda verdes, tampavam toda a entrada do terreno, era perigoso. Falou do churrasco que faria no próximo sábado, se despediu. Estava alegre, conversando, rindo, era meu. Domingo feliz, a nenê de volta à casa, filmamos, tiramos fotos até de madrugada...fui despertada na segunda com a notícia que me pareceu irreal: "Vanessa, papai morreu." Infarto. Fulminante. Foi o cigarro. Não deu tempo. Não resistiu. No serviço. Nove horas. Papai morreu. Acabou. Fecha o ciclo.
A vida sem ele. Que estranho... o velório rasgou minha vida, rompeu com o passado ao qual eu ainda estava ligada. De certa forma eu estava no caixão com ele...e todo aquele ritual macabro me jogou ao chão. Os dias que se seguiram ao velório foram horríveis. Não só pela falta dele, mas nos deparamos com uma realidade completamente desconhecida: a fazenda. Bandidos, ladrões, monstros ocultos, uma luta que fomos obrigados a lutar, ainda sem forças. Abril passou cinzento e avassalador. Minha irmã decidiu ficar mais do que o esperado e meu cunhado veio. A nenê fez um aninho, tivemos que comemorar, a vida continua e ela se tornou a alegria da casa, era impossível ficar triste ou enfraquecer ao ver aquela criança correndo pela casa, crescendo, se desenvolvendo, rindo e vivendo. De resto os problemas da fazenda e o inventário, assuntos dos quais só vou entrar em detalhes após o término disso tudo. dia 30 de Maio encontrei a Bianca na rua e a trouxe para casa, minha mãe não queria mais gatos, mas eu precisava dela. Junho. Comecei meu blog, o Brasil ganhou a copa, saí do News. Precisávamos ainda mandar limpar o terreno vizinho, que não era nosso, quem é a dona? Ninguém conhece a mulher. Ela é um nome. E só. O galho estava secando, aos poucos, aos poucos. Ainda estava ali.
Sobrevivi ao primeiro semestre, chegamos ao nosso limite. Talvez não, talvez ainda fosse possível recuperar. Eu sentia falta da minha vida, sentia falta de viver ao invés de simplesmente tentar sobreviver...eu sobrevivia, como se pudesse, de repente, parar de respirar se deixasse a luta. E poderia. Me escondia na faculdade, precisava passar por tudo, não conseguia me desligar dos problemas da casa, dos processos, da luta da fazenda, os problemas... e assim foi passando. Aos poucos, tudo foi se acalmando, isto é, em comparação com o jeito que estava antes, porque para os parâmetros normais ainda estava fora do eixo. Me envolvi na campanha eleitoral, minha irmã voltou ao Sul para votar, meus candidatos ganharam, ao menos 2002 não foi de todo ruim. Minha irmã decidiu ficar mais alguns meses, vir para cá buscar o resto das coisas e voltar de vez. O galho ainda estava no terreno, meio escondido pelo mato que crescera. Estava seco. E lembrando, me fazendo lembrar.
Sobrevivi ao primeiro ano de faculdade. Passei de ano. Com o tempo livre pude ir com mais frequência à igreja, o que me dá um prazer enorme. Cortei minhas amizades duvidosas e me sinto muito mais tranquila e livre, estou também muito mais fortalecida embora ainda falte alguns pedaços. Nos últimos dias de 2002 mais stress e decepções de algumas pessoas com uma pessoa em especial. Eu não me decepcionei, já sabia que essa pessoa era desequilibrada, só não imaginava que fosse uma ameaça à sociedade. A virada do ano passamos na igreja e entramos 2003 com a certeza da vitória e a sensação de alívio.
Sobrevivemos a 2002. O primeiro dia do novo ano trouxe a tão esperada posse do nosso presidente, uma certa sensação de recarga de bateria, uma tranquilidade de que a luta continua, mas a vitória é certa, nossas forças estão maiores e nossa confiança foi renovada. Não tivemos ceia de natal, nem comemoração de ano novo, "Não há clima" explicou minha mãe. Não há mesmo. Mas o natal e o ano novo foram exatamente como precisávamos: tranquilidade, paz, esperança reacesa...
Sobrevivemos a 2002. Sobreviveremos a qualquer coisa. E seremos felizes. Ainda não sei o que acontecerá nesse ano, mas pela primeira vez em toda a minha vida tenho a certeza de um ano maravilhoso pela frente. Dentro de mim tenho a certeza de um ano cheio de vitórias e alegrias. Tenho certeza. Ah, claro, um dia acordei e o galho não estava mais lá. Nem o mato, nem a sujeira. O terreno está limpo novamente, nu, novo. Acabou 2002...finalmente.
Sobrevivemos a 2002... E Feliz 2003!!!!!!!!!!!
02 de Janeiro de 2003 03:35 A.M

postado por: Wade Gold 7:03 AM




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